Delírio

 À noite, o frio era inexplicável. Os tremores, o suor gelado e o estômago embrulhado eram minha única companhia. Por muito tempo acreditei que merecia aquela condição; afinal, fui eu quem fiz a escolha. O sangue escorrendo do meu nariz contrastava com a pele branca do rosto magro, quase cadavérico — e, ainda assim, foi a única vez em que me vi bonita. Meti-me nesse buraco e agora não sinto que exista uma saída. Sempre dizem que um é muito e mil é pouco; eu deveria ter escutado, mas preferi subestimar a aceitar a realidade. 

Decido caminhar pela cidade, mesmo sendo tarde. Afinal, já não havia nada que me impedisse. A cidade me acolhe: é meu lar, o único lugar que verdadeiramente escuta sem julgamento. Sento-me na esquina perto de casa e adormeço ali mesmo. 

Acordo diante de uma cidade vazia, embora seja um horário normalmente movimentado — cerca de nove horas da manhã. Caminho por quarteirões que me são familiares, mas sinto como se nunca tivesse passado por eles. Tudo é conhecido e estranho ao mesmo tempo. Começo a tremer outra vez, apesar dos 30 °C. Suando frio, encosto-me na parede e uso mais uma dose. “Só mais essa”, penso, enquanto sigo meu caminho pela fantasmagórica Porto Alegre. 

À medida que meus passos pesados se arrastam, uma névoa espessa irrita minhas narinas e cobre os arredores, impedindo-me de reconhecer o caminho. Recordo quando tudo parecia mais simples, quando o mundo era vívido e alegre, sem riscos evidentes, sem pessoas tentando usar umas às outras o tempo todo, longe de perigos químicos. Ou talvez eu fosse apenas uma criança incapaz de perceber essas realidades cruéis e egoístas. Lembro das brigas e brincadeiras com minha irmã, do cheiro de pipoca da mamãe, da voz do papai acompanhada pelo violão. Começo a lacrimejar; meu nariz sangra outra vez. Cansada, com os pés inchados e sentindo a fraqueza e os calafrios da dose, deito-me no chão frio, tremendo, cercada pela estranha névoa. Fecho os olhos e sinto o ar gelado beijar minha pele. 
“Talvez eu tenha morrido.” 

Abro levemente os olhos e vejo uma pequena silhueta agachada ao meu lado. 

— Você foi fundo demais no abismo, não foi? — pergunta a menininha que me observa. 

Permaneço em silêncio. 

— O que você fez com a gente? 

Então reconheço seus longos cabelos castanho-escuros, a pinta no rosto, a cicatriz no queixo de criança levada. 

— Me… me desculpa — digo, fraca, deixando escapar um soluço. — Você não merecia isso. 

Ela me encara com uma mistura de decepção e compaixão. 

— Nenhuma de nós merecia. O que você foi fazer? 

— Eu não sei… achei que tinha controle, mas estava errada — respondo entre lágrimas. 

Sento-me no concreto frio e olho ao redor, tentando recuperar a consciência. A névoa bloqueia qualquer reconhecimento. A sensação de estar perdida, presa em um buraco sem saída, e o desespero de buscar quem eu fui um dia são coisas que não desejo nem ao meu pior inimigo. 

Sinto a mãozinha tocar meu ombro e olho para ela. 

— Você destruiu nossos sonhos, nossa família. Tornou-se tudo aquilo que sempre julgou. Não tinha esse direito. 

Uma lágrima escorre por seu rosto. Ela estende as mãos e me ajuda a levantar. Ainda fraca, sigo guiada por ela através da névoa, que começa a se dissipar. À nossa frente surge minha antiga casa: janelas brancas, paredes verdes, um jardim com mudas de rosas e ipês-amarelos. Olho para o lado e minha versão mais nova desaparece. Encaro a casa e sigo em frente; afinal, ou era isso ou permanecer na névoa. 

Bato à porta e entro. Na cozinha, vejo minha mãe cozinhando e cantarolando. O cheiro de tempero de mãe me envolve e fico paralisada. Aproximo-me e a abraço forte; o perfume de morangos exala dela enquanto começo a chorar. 

— Você sempre pode voltar para casa, sabe disso, não é? — diz ela. Apenas aceno com a cabeça. — Você nunca foi longe demais a ponto de não ter um retorno. 

Ela se afasta e toca meu rosto. Soluço novamente, e sua figura se dissipa na névoa. 

— Mãe! — grito, desesperada. 

Caminho na direção em que ela estava, mas nada encontro. Após alguns minutos, a névoa se abre mais uma vez, revelando a visão de mim mesma caída na rua, inconsciente: lábios roxos, pele acinzentada, sozinha, ignorada por todos. Uma mãozinha segura a minha. 

— Não pode ser o nosso fim agora. Mas a decisão de voltar ou não é sua. Você já sabe que essa autodestruição não vai acabar apenas com quem está ao seu redor, mas com todo o seu futuro. 

Ela me abraça. 

— Faça a nossa escolha. 

Fico sozinha, encarando meu corpo desfalecido por longos minutos, até tomar minha decisão. 

Abro os olhos e xingo, cegada pela claridade que explode diante de mim.

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