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Delírio

  À noite, o frio era inexplicável. Os tremores, o suor gelado e o estômago embrulhado eram minha única companhia. Por muito tempo acreditei que merecia aquela condição; afinal, fui eu quem fiz a escolha. O sangue escorrendo do meu nariz contrastava com a pele branca do rosto magro, quase cadavérico — e, ainda assim, foi a única vez em que me vi bonita. Meti-me nesse buraco e agora não sinto que exista uma saída. Sempre dizem que um é muito e mil é pouco; eu deveria ter escutado, mas preferi subestimar a aceitar a realidade.   Decido caminhar pela cidade, mesmo sendo tarde. Afinal, já não havia nada que me impedisse. A cidade me acolhe: é meu lar, o único lugar que verdadeiramente escuta sem julgamento. Sento-me na esquina perto de casa e adormeço ali mesmo.   Acordo diante de uma cidade vazia, embora seja um horário normalmente movimentado — cerca de nove horas da manhã. Caminho por quarteirões que me são familiares, mas sinto como se nunca tivesse passado por eles. Tudo...